Almanaque Contemporâneo
Carta semanal de filosofia estratégica aplicada à vida real.
Tempo de leitura: 6 minutos
Ritual de leitura: sem pressa.
Embriagados da nossa própria voz
Andamos a ser governados pelas nossas emoções quando, na verdade, devíamos aprender a ocupar o lugar de observador entre a mente e o corpo.
Somos tomados de assalto por pensamentos deturpados, numa velocidade desenfreada, sem início nem fim.
Dizemos o que não queremos.
Perguntamos o que não devemos.
Reagimos antes de perceber o que realmente nos está a acontecer.
Como diz Paulo Flores:
“Embriagado o poeta
Que fala de amor na sanzala,
Você fala ninguém escuta,
Você cala te perguntam.”
Vivemos essa embriaguez da nossa própria voz — e já nem a reconhecemos.
Talvez porque tenhamos perdido o contacto com o que é mais concreto.
Não de forma esotérica, mas real.
O presente.
O dia em que estamos.
O estado em que verdadeiramente nos encontramos.
Vivemos na ânsia pela sexta-feira — não a assistente virtual do Homem de Ferro, mas o dia antes do fim de semana.
Aquele que esperamos como um amor distante.
E, quando finalmente chega, vivemos dois dias como trailer de uma vida que não chegamos verdadeiramente a habitar.
A proposta é simples:
Não te envolvas emocionalmente com todos os teus pensamentos.
Antes de qualquer coisa, pergunta-te:
Já me alimentei hoje?
Tive uma boa noite de sono?
Movimentei o meu corpo de forma intencional?
Estas perguntas, feitas diariamente, mudam o paradigma dos dias que se seguem.
Porque só podemos mudar aquilo de que temos consciência.
Sem consciência, não há juízo.
Sem juízo, não há saúde.
O lugar neutro do observador continua a ser o melhor lugar para se estar.
Nem tudo o que pensas merece ser seguido.
Nem tudo o que sentes merece governar-te.